segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

#21 - PRIMAVERA DE BALAS, José Craveirinha

Agarro
Na minha última humilhação
E sem ir embora da minha terra
Emigro para o Norte de Moçambique
Com uma primavera de balas ao ombro.

E lá
No Norte almoço raízes
Bebo restos de chuva onde bebem os bichos
No descanso em vez da minha primavera de balas
Pego no cabo da minha primavera de milhos
E faço machamba ou se for preciso
Rastejar sobre os cotovelos
E os joelhos
Rastejo.

Depois

Escondido em posição no meio do mato
Com a minha primavera de balas apontada
Faço desabrochar no dólman do sr. Capitão
As mais vermelhas flores florindo
O duro preço da nossa bela
Liberdade reconquistada
Aos tiros!

terça-feira, 15 de novembro de 2016

#20 - ERVA, Carl Sandburg

Amontoem cadáveres em Austerlitz e Waterloo,
Enterrem-mos bem e deixem-me à solta --
          Eu sou a erva, escondo tudo.

Montes de corpos em Gettysburg
E montes de corpos em Ypres e Verdun.
Enterrem-mos bem e deixem-me à solta.
Dois anos, dez anos, e os passageiros para o condutor:
          Que sítio é este?
          Agora, onde estamos?

          Eu sou a erva,
           Deixem-me à solta.


(versão de Jorge de Sena)